Ano II N° 934,  Maceió, 04/09/2010   




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04/09/2010

SÓ COM UM VIOLÃO

 REDAÇÃO

Nara Leão é uma das mulheres mais importantes da cultura brasileira. Em vida, não gostava muito desse rótulo. Falecida, sua obra e sua história provam que mesmo rejeitando o título foi ela quem viu e ajudou no parto da Bossa Nova. E para reafirmar a importância de Nara, brasileira, capixaba, crescida no Rio e Janeiro, o escritor Cássio Cavalcante lança hoje Nara Leão - A Musa dos Trópicos. O lançamento já aconteceu em vários lugares do Brasil e, hoje, é atração na Flimar - a festa literária de Marechal Deodoro. Vale dizer que o texto na orelha do livro é do cineasta Cacá Diegues, primeiro marido de Nara.

Estão lá, histórias, canções, fotos, depoimentos e passagens da vida desta mulher, que, tímida, quase não se ouvia a voz até ela subir no palco e encantar quem assistia. Conta-se, por exemplo, que o primeiro disco foi uma surpresa: resgatou o samba de morro quando se esperava o amor, o sorriso e a flor. Foi porta-voz de toda população intelectual do país após o golpe militar de 1964. Quando todos estavam protestando, cantou com o Brasil 'A Banda'. Lançou talentos como Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo. Apoiou artistas no início da carreira como Martinho da Vila e Fagner. Foi a primeira cantora consagrada que deu apoio ao movimento musical tropicalismo, e foi simpática à Jovem Guarda.

Também foi a primeira a gravar um disco só de músicas de Roberto e Erasmo Carlos. Ainda foi o primeiro artista brasileiro a gravar no sistema de compact disc, o CD. Não aderia a modas, as fazia. Trechos de como foi a estreia profissional, quando da participação, ao lado de Vinícius de Moraes e Carlos Lyra, na comédia Pobre Menina Rica (1963). O título de Musa da Bossa Nova foi a ela creditado pelo cronista Sérgio Porto.

Mas, a consagração efetiva ocorre após o movimento militar de 1964, com a apresentação do espetáculo Opinião, ao lado de João do Vale e Zé Keti, um espetáculo de crítica social à dura repressão imposta pelo regime militar. Maria Bethânia, por sua vez, a substituiria no ano seguinte, interpretando Carcará, pois Nara precisara se afastar por estar afônica. Nota-se que Nara Leão vai mudando suas preferências musicais ao longo dos anos 1960.

De Musa da Bossa Nova, passa a ser cantora de protesto e simpatizante das atividades dos Centros Populares de Cultura da UNE. Embora os CPCs já tivessem sido extintos pela ditadura, em 1964, o espetáculo Opinião tem forte influência do espírito cepecista. Em 1966, interpretou a canção 'A Banda', de Chico Buarque no Festival de Música Popular Brasileira (TV Record), que ganhou o festival e o público brasileiro.

Dentre as suas interpretações mais conhecidas, destacam-se O Barquinho, A Banda e Com Açúcar e Com Afeto -- feita a seu pedido por Chico Buarque, cantor e compositor a quem homenagearia nesse disco homônimo, lançado em 1980. Nara também aderiu ao movimento tropicalista, tendo participado do disco-manifesto do movimento - Tropicália ou Panis et Circensis, lançado pela Philips em 1968 e disponível hoje em CD. Morreu na manhã de 7 de junho de 1989 vítima de um tumor cerebral inoperável aos 47 anos de idade.

Ela já sabia do tumor, e sofria com esse problema havia 10 anos. O tumor estava numa área muito delicada do cérebro, sendo inoperável. O último disco foi My foolish heart, lançado naquele mesmo ano, interpretando versões de clássicos americanos. E como disse o poeta Thiago Mello, durante despedida no enterro de Nara e que está registrado no livro, "Nara está cantando. Ela está dormindo, sonhando e cantando".

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